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Apesar de vitória, imagem de jogador sujo pode pesar contra Trump na eleição

Postado às 04h37 | 06 Feb 2020

Fábio Zanini

Antes mesmo da derrota do impeachment de Donald Trump no Senado americano, a imprensa alinhada ao presidente já considerava pavimentado o caminho para sua reeleição.

"O fato de Trump ter evitado cometer um crime ou quebrar a relação de confiança com o público é o principal elemento desta absolvição", escreveu o Federalist, com a efusividade típica dos sites e blogs trumpistas.

É difícil não concordar que a vitória seja um enorme impulso político para o presidente, especialmente por vir na esteira de uma sequência de triunfos nos últimos meses. 

Desde o final do ano passado, Trump renegociou o Nafta (acordo com Canadá e México) e dobrou a intransigência comercial chinesa, duas ações com forte ressonância junto a trabalhadores de estados fundamentais para suas chances de reeleição.

São eleitores, não custa lembrar, que sempre se inclinaram pelos democratas.

No front externo, humilhou o Irã ao matar um general e apostar que a reação mal faria cócegas, o que se confirmou.

Com o endurecimento da política anti-imigração, manteve sua base conservadora alinhada, apesar de não conseguir cumprir a promessa de construir um muro em toda a fronteira com o México.

Mais importante, tem a seu favor o vento econômico, com desemprego baixíssimo, menor do que 4%, e crescimento saudável previsto para o ano, em torno de 2%.

É cedo, no entanto, para considerar a vitória no impeachment como o passaporte para mais quatro anos de mandato. A vitória é clara, mas não absoluta.

Trump sobreviveu a um processo político, mas a imagem de um presidente que usa o peso do cargo para seus interesses fica.

Apesar do que diz a claque trumpista, mesmo opositores moderados do afastamento do presidente reprovaram sua conduta.

Um deles foi o senador republicano Lamar Alexander, de perfil centrista, para quem a ofensa do presidente apenas não foi suficiente para atender aos critérios estabelecidos pela Constituição para ser passível de impeachment.

Em outras palavras, Trump errou, mas impeachment seria um exagero.

Há pouco mais de 20 anos, o democrata Bill Clinton viveu processo parecido. Seu impeachment por perjúrio e obstrução de Justiça no caso Monica Lewinsky foi derrotado com facilidade no Senado.

Mas a pecha de mentiroso e trapaceiro grudou em Clinton para sempre, prejudicando as eleições de seu vice, Al Gore, em 2000, e de sua mulher, Hillary, em 2016.

Para os democratas, é impossível negar que tenham sofrido uma derrota, mas o revés pode ser temperado com certo alívio.

​A escancarada chantagem de Trump junto a seu colega ucraniano, Volodimir Zelenski, também jogou luz sobre as atividades do filho do pré-candidato democrata Joe Biden, Hunter, como algo próximo de um lobista.

Num processo que envolvesse depoimentos de testemunhas, como queriam os democratas, Hunter certamente seria convocado, e teria de enfrentar toda a fúria de senadores republicanos e possivelmente também do partido do pai. O próprio Joe Biden poderia ser chamado a depor. 

Em 2016, Trump venceu porque conquistou os votos certos nos estados certos, uma combinação de resultados que se assemelhou a uma tempestade perfeita. Sua eleição se deveu a margens estreitas em antigos redutos democratas, como Michigan, Wisconsin e Pensilvânia.

Mas teve 3 milhões a menos de votos que Hillary no cômputo geral, uma margem considerável (em comparação, Gore venceu Bush filho por 543 mil em 2000, mas também foi derrotado segundo as regras do Colégio Eleitoral).

Isso significa que, apesar do cenário favorável, Trump novamente terá de escalar uma ladeira íngreme para conquistar mais quatro anos de mandato.

A marca de um presidente que joga sujo, apesar da vitória no processo de impeachment, pode pesar e dar alguma esperança a seus opositores.

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